segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Compaixão – O Melhor Sermão

Texto Bíblico: “Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes.” Mateus 14:14

Este foi um dos dias mais conturbados na vida de Jesus.

Logo pela manhã, chega a notícia de que João Batista, o primo, o amigo e predecessor, havia sido decaptado sob as ordens do ímpio e moralmente fraco Herodes.

Você já viveu uma experiência assim? Tudo parece transcorrer com a naturalidade de sempre quando surge um mensageiro inesperado com a informação do falecimento de uma pessoa querida. Ainda que tente se recompor e demonstrar força, você certamente ficará extremamente abalado e triste.

Os problemas, porém, não terminaram aí. Já percebeu que as coisas ruins nunca acontecem sozinhas? Quase sempre ocorrem em cascata? Junto vem a informação de que o mesmo Herodes que cortou a cabeça de João Batista estava à caça do pescoço de Jesus. Lucas 9:9

Você já sofreu ameaças? Como se sentiu nessa ocasião?

O impacto de tudo isto sobre o coração de Jesus foi tão forte que ele decidiu se isolar por algum tempo para se recompor.

Neste momento chegaram seus discípulos. Eles vieram da expedição missionária que lhes havia sido designada. Chegaram felizes, cheios de entusiasmo, relatando as vitórias maravilhosas do poder de Deus, curando pessoas, expulsando demônios, transformando vidas. Nunca antes haviam experimentado algo igual. Até então haviam visto Jesus fazendo maravilhas. Nunca eles próprios. Agora a experiência era diferente. Sentiram-se como instrumento do poder de Deus. Estas eram novas de grande alegria. Jesus depositava nestes homens total confiança para a continuidade de sua missão. Você consegue enxergar o choque de emoções dentro do coração do Mestre: da profunda tristeza para alegria indescritível. Do vale, para o cume. É muita coisa para um só dia.

Sem muitas palavras Jesus os convida para unirem-se a ele num momento de descanso e isolamento. Jesus precisava disso. Suas emoções haviam sido testadas ao máximo. Além do mais, a procura pela intervenção do Mestre era tão grande que nos últimos dias nem ele, nem os discípulos haviam tido tempo sequer para se alimentar adequadamente.

Já se sentiu nestas condições? Precisando parar para se reequilibrar? Dar um tempo? Entrar no quarto e fechar a porta para balanço?

Entraram no barco e navegaram à procura de um lugar deserto em que pudessem estar sozinhos e relaxar um pouco. Talvez uma praia solitária num rincão escondido.

Acontece que as notícias correm muito rápido. De algum modo as pessoas percebem e por terra, seguiram o grupo de Cristo. Aliás, correram tanto que chegaram antes de Jesus. Quando desembarcaram, Jesus e os discípulos encontraram cinco mil homens, mais mulheres e crianças, aguardando por eles.

Embora, possivelmente, houvesse ali muitos curiosos, a grande maioria era de sofredores, pobres, doentes, desiludidos, desesperançados, feridos pelas batalhas cruéis da vida.

Estavam em busca da esperança que já não julgavam encontrar mais. Procuravam pela ajuda que durante tanto tempo buscaram em tantos lugares e pessoas sem encontrar, e que agora se desenhava à sua frente. Para muitos era a última esperança...

O que você faria se estivesse no lugar de Jesus? Como você trataria estas pessoas?

Eu provavelmente diria: “Meus amigos, vocês chegaram na hora errada. Voltem para a casa e retornem num momento melhor. Acabo de receber a notícia do falecimento de um amigo querido. Não tenho cabeça para pensar em nada. Além disso, vejam: meus discípulos estão regressando de uma estressante campanha missionária. Se não bastasse isso, nos últimos dias a pressão tem sido tão forte que não temos encontrado nem sequer tempo para nos alimentar direito. Prometo que ajudo vocês, mas não agora. Voltem depois porque ninguém é de ferro!”

Pergunto: Jesus estaria errado se tivesse dito isto? Estes argumentos não eram a mais pura expressão da verdade?

Quando medito neste ponto, fico corado de vergonha ao comparar meus sentimentos, atitudes e reações com os de Jesus... Como sou pronto para arrumar desculpas (reais ou imaginárias), como estou longe de ter o mesmo olhar do Mestre... Como ao invés de viver para fora, para os outros, tranco-me no meu mundo, nas minhas necessidades, tristezas, emoções e depressões... Como fujo do caminho do serviço, da minha responsabilidade pessoal, do ministério que Deus me designou em minha comunidade, fechando-me numa visão pessoal e egoísta... Como cerro os olhos para as necessidades dos outros, enxergando apenas as minhas próprias... Talvez por isso é que a nossa geração é tão vazia, a vida sem sentido, as enfermidades psico-somáticas multiplicam-se, e as pessoas são tão estressadas e sozinhas.

A melhor maneira de resolver uma angústia pessoal é trabalhar para solucionar as angústias dos outros. Feche-se e morrerá com seus problemas. Envolva-se e sua vida se renovará. Os psicólogos, neurologistas e epidemiologistas estão afirmando que agora está cientificamente provado: ajudar ao próximo traz benefícios para a saúde de quem ajuda. Fazer o bem é bom para o coração, para o sistema nervoso e imunológico. Aumenta a expectativa de vida e a vitalidade.

Em um projeto realizado nos Estados Unidos ao longo de dez anos, 2.700 pessoas foram estudadas, a fim de verificar como o relacionamento social afetava sua saúde. Os pesquisadores descobriram que o fato de realizar regularmente trabalho voluntário, aumentava muito a expectativa de vida, principalmente dos homens, que tinham taxas de falecimento duas vezes e meia mais baixas, do que os que não o faziam.

Segundo os especialistas, ao fazer o bem, despertamos gratidão e afeto, sentimentos que nos provocam uma sensação de bem estar. Essa sensação em parte é causada pelas endorfinas produzidas pelo cérebro. A hostilidade, que é o oposto do altruísmo, coloca nossa saúde em risco. Quanto mais hostil a pessoa, mais fechadas as suas artérias coronárias e maior o risco de doenças cardíacas.

Mesmo estando sofrendo, mesmo carecendo ele próprio de ajuda, mesmo sobrecarregado e necessitando parar para descansar, Jesus decidiu parar para ajudar. As multidões precisavam disto. Mais do que isto, o próprio Jesus, enquanto ser humano, também precisava.

Por vezes afirmamos que os pobres e necessitados precisam da ajuda da igreja. Provavelmente esta afirmação está, na maior parte das vezes, distorcida; talvez a igreja precise muito mais dos pobres e necessitados do que eles de nós. Por isso é que o Senhor permite que estejam à nossa porta.

Ellen White escreveu: “Ao passo que o mundo necessita simpatia, orações e assistência do povo de Deus, ao passo que precisa ver a Cristo na vida de Seus seguidores, o povo de Deus se acha em igual necessidade de ocasiões de exercer simpatia, de dar eficácia a suas orações e desenvolver neles um caráter segundo o modelo divino. É para proporcionar essas oportunidades que Deus colocou entre nós os pobres, os desafortunados, os doentes e sofredores.” Ministério do Amor, pág. 15

Entenda uma coisa: a igreja precisa mais da ADRA que o mundo lá fora. Os maiores beneficiados pelo trabalho da ADRA não são os milhares atendidos anualmente. São os membros da igreja, que unindo-se em serviço voluntário em prol de seus semelhantes, dão uma chance maior a Jesus para trabalhar seu caráter e curar suas feridas emocionais mais íntimas. Sem a ADRA a igreja seria mais pobre e infeliz.

Jesus sabia disto, assim sendo, parou para ajudar. Diz o Evangelho: “Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes.” Mateus 14:14

Compaixão – Este termo aparece 83 vezes nas Escrituras na versão em português: 65 vezes no Antigo Testamento e 18 vezes no Novo Testamento. É significativo observar que das 18 vezes em que é usado no Novo Testamento, 11 ocorrem nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas em relação ao ministério de Jesus Cristo. Havia um leque grande de palavras no grego que poderiam ser usadas pelo evangelista para expressar a compaixão de Jesus. Cada uma delas com significado e aplicações distintos. Mas ele não usa o termo aleatóriamente. Não. Ele escolhe propositalmente o de alcance mais significativo e profundo.

Eis algumas das palavras gregas que poderiam ter sido usadas, no relato deste episódio:
Sumpatheo – Em português, “simpatia”. Em Hebreus 4:15, referindo-se ao Sacerdócio de Cristo esta é a palavra usada. Significa “sofrer com o outro”.

Oikteiro – “Ter piedade, um sentimento de aflição pelas adversidades dos outros”. Em Romanos 9:15 este termo aparece referindo-se à compaixão de Deus.

Eleeo – “Mostrar generosidade, mediante beneficência ou ajuda”. É usada em Judas 22 falando sobre a atitude esperada dos crentes para com os escarnecedores dos últimos dias.

Metriopatheo – Traduzido como “compadecer-se”. Ocorre em Hebreus 5:2, relacionando-se com a ação de Jesus Cristo, nosso sumo-sacerdote para com os que erram.
Sob a orientação do Espírito Santo, o evangelista deixa de lado todas estas opções para usar outra palavra:

Splanchinizomai – Se você trabalha na área da saúde ou já estudou sobre “esplancnologia” percebe o alcance do termo. Esplancnologia é o estudo das partes viscerais, ou no jargão popular, “o estudo das tripas”. Significa ser movido como pelas entranhas, sensibilizar-se por compaixão. Esta é a palavra que os evangelhos com freqüência registram a respeito de Jesus para com as multidões e pessoas que sofrem. É usada referindo-se ao apelo de um pai, cujo filho era atormentado por demônios. Expressa o sentimento do pai na parábola do filho pródigo de Lucas 15.

Isto é extremamente significativo. Dizem que quando você é confrontado com situações de necessidade que o desafiam a doar e doar-se, existem três modelos possíveis: o do seixo, o da esponja e o do favo de mel. Para conseguir algo do seixo é preciso dar-lhe uma pancada com um pedaço de aço, e mesmo assim não dá mais que uma fagulha viciosa. A esponja ao ser apertada, não devolve tudo que absorveu. O favo de mel é apenas uma frágil cobertura de abundante doçura, e o menor rompimento dessa cobertura dá visão à doçura.

Jesus não era seixo, nem esponja. Era puro favo de mel. Quando Mateus escreve que Jesus compadeceu-se das pessoas, ele não está dizendo que Jesus teve uma pena casual. Não, o termo tem um sentido mais forte. Jesus sentiu dor em seu intestino: sentiu a fraqueza do aleijado, o sofrimento do doente, a solidão do leproso e a vergonha do pecador.

E, uma vez que sofreu dessa maneira, não podia resistir. Não dava para ficar de braços cruzados. Tinha de curar a dor das pessoas. Ele foi movido em seu interior pelas necessidades delas. Foi tão tocado pelas necessidades alheias que esqueceu-se de suas próprias necessidades.

Olhando sob a perspectiva humana não havia muito que pudesse fazer além de ensinar-lhes sobre o Reino de Deus e depois mandá-los de volta para casa. Sua missão era conduzi-los ao Céu, não ministrar suas necessidades materiais. Não tinha bens físicos para compartilhar. Aliás, o Mestre em certa ocasião afirmou que “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. Mateus 8:20

Depois de muito esforço conseguiu reunir 5 pães e 2 peixes. Mas, o que era isto diante da necessidade do povo? Como podia com tão pouco atender aquelas pessoas que precisavam ser alimentadas?

Este mesmo dilema ainda hoje nos alcança. Veja o que dizem as estatísticas:

- Há 800 milhões de pessoas desnutridas no mundo.
- 11 mil crianças morrem de fome a cada dia.
- Um terço das crianças dos países em desenvolvimento apresenta atraso no crescimento físico e intelectual.
- 1,3 bilhão de pessoas no mundo não dispõe de água potável.
- 40% das mulheres dos países em desenvolvimento são anêmicas e encontram-se abaixo do peso. - Uma pessoa a cada sete padece fome no mundo.
- 14 milhões passam fome no Brasil.
- Mais de 72 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar, ou seja, dois em cada cinco brasileiros não têm garantia de acesso à alimentação em quantidade, qualidade e regularidade suficiente.
- Quase 40% da população, não sabe se terá dinheiro para repor a comida que tem.
- Temos no Brasil 21,9 milhões de indigentes que representam 12,9% da população com renda per capita menor que um quarto do salário mínimo, cerca de R$ 110,00.
- São 14,6 milhões de analfabetos, 11% da população brasileira, sendo que 9,6 milhões moram na zona urbana.
- Temos 53 milhões de pobres, o equivalente a 31,7% da população, isto é, temos milhões de famílias com renda domiciliar per capita inferior a meio salário mínimo por mês.

Como igreja, muitas vezes, nos desviamos do caminho da misericórdia e solidariedade justificando-nos de que nossa missão é puramente espiritual. Atender aos pobres é perder o foco. Além do mais, não dispomos de muitos recursos. Onde conseguir os meios para transformar o amor intangível em atitudes concretas e palpáveis? Racionalizamos e descansamos em paz aliviando a consciência com a desculpa esfarrapada de que estamos dispensados de fazer o bem. Engano nosso.

Ouça o que diz Ellen White: “Se um espírito egoísta e contrário à simpatia se permite existir em qualquer de seus membros para com os desafortunados, as viúvas, os órfãos, os cegos, os coxos ou os que são enfermos no corpo e na mente, Ele esconderá Sua face de Seu povo até que cumpram o dever e removam o erro de seu meio.” Min. do Amor, 210

Mas, e os meios?
“Os meios de que dispomos talvez não pareçam suficientes para a obra; mas se avançarmos com fé, crendo no todo-suficiente poder de Deus, abundantes recursos se nos oferecerão.”

...‘O Senhor diz: “Dai, e ser-vos-á dado.” O que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará... E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo toda a suficiência, abundeis em toda boa obra; conforme está escrito: “Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre.”’ Ministério do Amor, pág. 336.

Os discípulos reuniram o pouco que possuíam – apenas 5 pães e 2 peixes – e colocaram nas mãos de Jesus, a serviço da multidão. Jesus começou a parti-los. A partir daí, tudo o que os discípulos tinham de fazer era apanhar das mãos de Jesus e distribuir ao povo. Todos foram atendidos. Ninguém permaneceu com fome. Ninguém foi dispensado de volta para casa da mesma forma que veio. O emprego desses recursos no atendimento dos carentes abriu corações para ouvir e aceitar o anúncio do evangelho. Tornou mais palpável, próximo e real, o que antes soava tão distante.

Às vezes me surpreendo pensando: O que nos falta hoje: recursos ou fé? Nosso problema é ausência de meios ou carência de amor? Porque não fazemos mais: por falta de meios ou falta de compaixão? Porque a pregação não é mais poderosa: por falta de poder ou por excesso de retórica distanciada da prática?

Referindo-se ao tempo do fim Jesus profetizou: “Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará.” Mateus 24:12

De maneira assustadora vemos estas palavras cumprindo-se diante de nossos olhos. Amor é uma das palavras mais usada por nós, porém isso é o que menos se vê por aí: amor entre as pessoas. Não importa a idade, sexo, raça, cor, credo, todos humanos anseiam ser amados e procuram por esse amor. Até um vira-lata abana o rabo em troca de um simples toque.

A ciência já comprovou que o amor é um fator fundamental, estreitamente ligado à saúde e à doença; à tristeza e à alegria; ao sofrimento e à cura. Ainda não inventaram um remédio que tivesse este mesmo efeito.

No entanto o que temos visto por aí é uma tremenda falta de amor em nossa sociedade, aliás, esta sociedade que dá mais ênfase à riqueza, ao poder, à fama e ao sexo, à mídia, do que à necessidade que temos de nos relacionarmos uns com os outros. E isto acontece mesmo dentro da igreja. Nossa carência de amor é tão grande que Deus cuidou de colocar na Bíblia um capítulo inteiro só sobre o amor – I Coríntios 13. Tire um tempo para meditar neste texto. Ali somos advertidos que as nossas melhores intenções ou atitudes sem amor não significam realmente nada.

Será que não está na hora de incorporarmos esta mensagem? De sermos mais parecidos com Jesus? De pregarmos com palavras, mas acima de tudo com ações, práticas, concretas, reais?
Será que não está na hora de fazer o bem por amor – por verdadeira compaixão ao que sofre, antes que por interesses particulares ou mesmo a busca de holofotes, menções honrosas ou atenção da mídia?

Concluo com um antigo poema: O Melhor Sermão (Autor Desconhecido)
.(...) Disse-lhe então, que o maior sermão que podemos pregar é...

SER–MÃO que levanta quem caiu,
SER-MÃO que sinaliza esperança pra quem se sente sozinho,
SER-MÃO de solidariedade pra quem se encontra cercado e encurralado
por toda forma de conflito,
SER-MÃO de perdão pra quem traiu,
SER-MÃO de misericórdia pra quem se sente no fundo do poço,
SER-MÃO de benção pra quem não tem nada e um nada se sente,
SER-MÃO que aponta o céu, mesmo que a única realidade presente seja o
inferno,
SER-MÃO que fala sem palavra alguma, onde só se veja e ouça o gesto
da mão.

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