domingo, 10 de janeiro de 2010

Música e o Evangelismo

A música sempre desempenhou uma parte importante na história bíblica. Seus efeitos foram valorizados para se criar uma atmosfera de inspiração para Eliseu (2 Rs 3:15); ajudou o rei Saul a recuperar seu equilíbrio emocional em meio à severa depressão (1Sm 16:14-17); e foi o instrumento de um dos grandes milagres do Velho Testamento (2 Cr 20:22). Acerca disso, Ellen White (1996, p. 202) observou:

Se mais louvores de Deus tivessem lugar agora, esperança e coragem e fé aumentariam constantemente e isto não fortaleceria as mãos dos valentes soldados que hoje estão firmes em defesa da verdade?

Qual a importância da música para o evangelismo? Aparentemente, o apóstolo Paulo considerava a música como um importante instrumento para ganhar almas. Embora a Bíblia não revele que cânticos Paulo e Silas cantaram na prisão em Filipos, ela registra o incrível resultado daquele louvor. O carcereiro clamou: “Senhores, que devo fazer para ser salvo?” (At 16:25-30). Donald P. Ellsworth (1979, p. 27) comenta que o carcereiro não foi motivado a fazer essa pergunta por causa do terremoto, uma vez que nada há de intrínseco no terremoto que encoraje alguém a buscar a salvação. Segundo ele, o cântico deve ter provocado esse desejo porque Paulo ensinou que a música deve ser apresentada com propósito (1 Co 14:15).
Paulo disse que usava “todos os meios” para ganhar pessoas para Cristo (1 Co 9:22). A música certamente era um deles. Quando usada no evangelismo, a música exerce uma forte influência em trazer pessoas para Cristo. Muitas partes da Bíblia foram originalmente escritas para serem cantadas. Alguns têm notado que enquanto a ordem para pregar aparece seis vezes nas Escrituras, a injunção para cantar, louvar e expressar gratidão em alta voz é encontrado quinhentas vezes na Bíblia. Até a instrução de Paulo para “orar sem cessar” é prefaciada por “regozijai-vos sempre” (1 Ts 5:16,17).

Evangelizando com a Música

Através da história, a música tem sido usada com eficácia no evangelismo. James Sallee (1978, p. 9). afirma que “cada grande movimento religioso se apoiou na música.” O heresiarca Ário, por exemplo, fundador da seita que tem o seu nome, embora dispusesse de argumentos bem mais fracos do que os do seu ferrenho adversário Atanásio, doutor da Igreja e patriarca de Alexandria, era um sagaz, infatigável e fanático propagandista de suas esdrúxulas doutrinas. Assim é que, levando em consideração o obscurantismo e a religiosidade dos seus fiéis prosélitos, Ário compôs para os mesmos atraentes e entusiásticos corinhos, uma espécie de catecismo contendo os seus ensinamentos. Em pouco tempo, a metade das pessoas das cidades circunvizinhas entoava os singelos cânticos. Esses hinos heréticos foram amaldiçoados pelo irascível Atanásio; contudo, as suas ameaças de excomunhão para os transgressores contumazes foram inoperantes.

Os hinos que Lutero introduziu deram força à Reforma, porquanto permitiam que as pessoas expressassem suas experiências pessoais. A Igreja Católica temia os hinos de Lutero tanto quanto as suas doutrinas. Por isso, os católicos romanos declararam que “As músicas de Lutero corromperam mais almas do que todos os seus livros e discursos” (ELLSWORTH, 1979, p. 67). Os irmãos John e Charles Wesley evangelizaram a Inglaterra através da Palavra e da música. As mensagens evangélicas de Wesley que enfatizavam o ilimitado sacrifício de Jesus e o livre arbítrio dos homens, acompanhados pelos hinos de seu irmão, resultaram em milhares de pessoas para o reino de Deus.

Philip P. Bliss e depois Ira D. Sankey, que uniram seus talentos ao cantarem para a pregação de Dwight L. Moody, quebravam o gelo da audiência através da música evangélica. A personalidade cativante desses homens acrescida de vozes harmoniosas testificava da alegria que é parte do cristianismo. Moody e Sankey foram pioneiros no conceito de combinar a pregação com a música evangelística. Eles foram a primeira equipe na história do evangelismo composta de um pregador e um cantor. O hino de Sankey, “As noventa e nove,” é exemplo de um cântico ganhador de almas (STREETT, 1984, p. 194).

Nos tempos atuais, Billy Graham e o diretor de canto congregacional Cliff Barrows tornaram-se um modelo para o evangelismo mundial. Nessas cruzadas, incluem-se um ou dois cânticos congregacionais, pelo menos dois solos apresentados por cantores visitantes e um solo introdutório de Bev Shea, antes do sermão. Esse solo serve de transição entre o serviço de cânticos e a mensagem. Padrão semelhante tem sido visto no evangelismo adventista no Brasil, em que o pregador Alejandro Bullón era acompanhado do maestro Williams Costa Jr e da cantora Sonete.

Ellen White (1978, p. 501) enfatizou alguns princípios importantes relacionados à música tais como o uso de variedade de instrumentos, a participação de toda a congregação e não apenas de uns poucos (1978, p. 504, 507), a qualidade da música (ensaios, organização, música apropriada para a ocasião) (1978, p. 506, 508, 510-511) e a consagração dos músicos (1978, p. 509-510). Provavelmente, para ela, o mais importante é levar em conta a qualidade e a relevância cultural.

Outros elementos espontâneos nos programas evangelísticos, como bater palmas e levantar as mãos, também têm trazido alguma crítica para os evangelistas. É verdade que esses elementos têm sido usados nos cultos pentecostais. No entanto, só porque os pentecostais usam certos elementos no culto, isso não os torna necessariamente maus, por exemplo, dizer “glória a Deus,” ou “aleluia”. Bater palmas e dizer “amém” são expressões culturais de alegria. Ambas têm base bíblica. “Batei palmas, todos os povos, celebrai a Deus com vozes de júbilo” (Sl 47:1).

Russel Burrill (1999, p. 156), diretor do Instituto de Evangelismo da Divisão Norte Americana, sediado na Universidade Andrews, menciona que na campal evangelística de Groveland, enquanto falava a cerca de 15.000 pessoas, Ellen White disse o seguinte: “Fui interrompida diversas vezes com o bater de palmas e de pés no chão. Nunca tive um sinal de vitória tão grande!” Ela gostou dessas manifestações como uma resposta à sua mensagem. De fato, o levantar de mãos era comum tanto na Bíblia como entre os primeiros adventistas. Uma das referências bíblicas diz: “erguei as mãos para o santuário e bendizei ao Senhor”.

As Funções da Música

Nós expressamos nossa emoção através da música e, inversamente, ela pode estimular nossas emoções (HAMEL, 1973, p. 24-38). Além disto, os ensinos são mais bem retidos na mente quando colocados na forma de música (Sl 49:4). Ellen White (1978, p. 500) assim falou acerca da importância da música no evangelismo: “O canto é um dos meios mais eficazes para gravar a verdade espiritual no coração. Muitas vezes se têm descerrado pelas palavras do canto sagrado, as fontes do arrependimento.” De maneira prática, as funções da música em um evento evangelístico podem ser definidas nos seguintes pontos:

1. O serviço de cânticos no início ajuda a preparar os corações dos ouvintes para a apresentação do evangelho. A música cria uma atmosfera apropriada ao conduzir os pensamentos das pessoas das variadas preocupações para uma atitude receptiva em relação à mensagem da noite.

2. Cânticos que contenham o kerygma (mensagem) podem trazer pessoas a Cristo de maneira tão eficaz quanto a pregação, além de ser uma forma de testemunho para os crentes.

3. A música ajuda a quebrar os preconceitos e cria laços de companheirismo com a equipe evangelística.

4. Cria o canal emocional através do qual o coração pode se unir à mente em exercitar a vontade. Exemplo disso é o hino “Tal Qual Estou” de Charlotte Elliot, usado nos apelos de Billy Graham, e que tem tocado milhares de vidas ao redor do mundo.

Hower Rodeheaver (1975, p. 142), que cantou como associado de Billy Sunday, define o hino como geralmente sendo dirigido a Deus em louvor e adoração, uma entrega do eu a Deus. Os “cânticos gospel” são geralmente endereçados a pessoas, pois eles testificam da experiência pessoal e exortam ao comportamento cristão. Enquanto os hinos são mais apropriados ao grupo de adoradores, os cânticos são mais aceitáveis em grupos heterogêneos como numa série evangelística.

O cantor evangelista

A pessoa escolhida para dirigir os cânticos precisa fazer mais do que anunciar números. Ele deve somar um espírito de entusiasmo e companheirismo cristão, reconhecendo que o serviço de cânticos é mais que uma preliminar enquanto as pessoas estão chegando. Ele deve introduzir cada cântico com poucas palavras para ressaltar o significado e mostrar a conexão com o tema. Seguem alguns lembretes práticos:

1. O líder de cânticos é o primeiro a ter contato com o povo. Deverá começar com um cântico conhecido, e trazer outros com melodias alegres que convidem à participação. Ilustre alguns hinos com cenas e imagens na tela, e tenha um cântico oficial para a campanha.

2. Mantenha o serviço variado. Ocasionalmente você poderá ter músicas especiais para crianças ou convidá-las a cantar. Os pais apreciarão essa atenção e a recompensarão retornando noite após noite.

3. Os jovens preferem cânticos antifonais, em que a audiência é dividida em duas ou mais partes. Uma seção do auditório responderá para a outra, cantando parte do cântico. Este era o método de cantar os salmos na Bíblia.

4. Os adultos apreciarão aprender uma abreviada história do cântico ou hino de que eles gostam.

5. Arranje os cânticos de acordo com o tema da noite: “Oração,” “Segunda vinda de Jesus,” etc.

6. Sorteie CDs com cópias das músicas preferidas da audiência para que possam cantar em casa, repetindo verdades na forma de cânticos.

Em adição ao serviço de cânticos e música especial, o líder de cânticos deverá estar pronto para providenciar músicas de apelo através de um solista ou grupo musical (WHITE, 1978, p. 503). Esse momento é tão importante quanto a marcha nupcial, que anuncia a vinda da noiva no corredor da igreja para se encontrar com o noivo. A marcha nupcial torna a ocasião memorável e solene. De igual maneira, o hino de apelo adorna o momento da entrega a Cristo, e sugere uma analogia do casamento entre Cristo e Sua esposa, a igreja. O evangelista necessitará dessa música no clímax do sermão, para providenciar o background, tanto em melodia quanto em letra, para o momento do apelo. Como exemplos de hinos favoritos apropriados podem ser citados “Quase Persuadido” e “Tal Qual Estou.”

Ter senso de oportunidade é importantíssimo. O cantor deverá estar em posição e pronto para cantar no instante em que percebe o sinal do evangelista. Não pode haver pausa embaraçosa ou confusão aqui. A música de apelo deveria ser uma das que são familiares à audiência, uma que ela aprenda a amar, cuja mensagem possa facilmente entender. O cantor deveria conhecê-la tão bem que não necessitasse da letra, e deveria senti-la para que o auditório a sentisse também.

Visitando as pessoas em seu lar ajudará o cantor evangelista a conectar-se melhor com as pessoas. Dessa forma, ele poderá familiarizar-se com os problemas do auditório, e isso o guiará na escolha dos cânticos para o próximo programa. Assim, o cantor evangelista se sentirá como parte integrante da equipe, e seja ele um estudante ou leigo, sua consagração e preparação serão indispensáveis ao sucesso da campanha.

Pr. Emílio Abdala
Professor de teologia na Faculdade Adventista da Bahia

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